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A HISTÓRIA DO ACORDEOM BRASILEIRO - Por Chico Chagas (Capítulo 1)

Foto do escritor: ES Brasil  Produções ES Brasil Produções

Atualizado: 13 de fev.



Gostaria de compartilhar com vocês minha visão sobre o acordeom na era atual no Brasil, o acordeom harmonizador, improvisador, dentre outras nuances. O acordeom jazz na versão brasileira.

O acordeom brasileiro, começou a se relacionar diretamente com o jazz há pouco tempo, porém, nós brasileiros, temos uma relação com o jazz desde o início da Bossa Nova, no final dos anos 1950. Falar do Acordeom Brasileiro, é falar de toda uma miscigenação e de uma cultura que foi criada com a influência dos mais diferentes povos e seus costumes. A maior influência da música em massa brasileira (aquela que toca em programas de rádio e TV) vem da África, com os ritmos do Nordeste e também da música pop americana e inglesa. O acordeom chegou ao Brasil principalmente pelas mãos de imigrantes italianos e alemães, embora o Brasil tenha forte influência cultural de outros países europeus, como França, Portugal e, musicalmente falando, alguns boleros de língua espanhola, provavelmente do México. O ritmo mais marcante foi, a princípio, a valsa, apesar de ter o fado, a chanson francese, a tarantela e algumas polcas alemãs, mas a tarantela e a polca alemã não caíram no gosto popular, mesmo reconhecendo a importância cultural que esses gêneros representam em cada país de origem. Não só o acordeom, mas outros instrumentos europeus tomaram outra maneira de fazer melodias e ritmos no Brasil, forjando e adaptando-se a todo o "latinismo'' que, ao meu ver, é mais africano que latino.

Fiz essa abertura para que os apaixonados pelo acordeom e todo o seu conteúdo empírico, entendam um pouco mais sobre como chegamos ao som que fazemos hoje. O acordeom evoluiu muito no Brasil, embora o instrumento em si tenha perdido um pouco de espaço no ambiente comercial. Refiro-me a artistas que viveram de sua música instrumental, sendo ela autoral ou não, porém tendo como linha de frente e principal expositor melódico, o acordeom.

A valsa com seu espírito solene e magistral, trouxe um glamour ao acordeom, que estava ganhando espaço e muitos fãs. O acordeom fez serestas (um estilo de música brasileira que vou falar no decorrer desses posts), alvoradas ( uma festa de aniversário ilustre) e casamentos, com valsa como sua música principal.

Sim, a valsa era solene, elegante e desprovida de orgulho, virtuosismo ou auto afirmação por parte dos instrumentistas, sendo mais importante sempre as

melodias, que, talvez, tenha sido um fator que fez com que o acordeom e o acordeonista da música instrumental perdessem espaço no ambiente comercial, o virtuosismo desmedido ofuscou a melodia. Claro que aqui não vou falar sobre o 'melhor' ou mais vendido artista, vou falar sobre aqueles que considero mais representativos para a construção da linguagem do que concebemos como o Acordeom Brasileiro. Vou começar no Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) que é onde a moda foi "ditada". Começo com os fantásticos intérpretes e compositores Alberto Calçada, Mário Gennari Filho e Antenógenes Silva.

Ainda não falarei da parte técnica, pois tecnicamente reconheço que ainda temos muito a evoluir, se tivermos por medida os europeus e russos. Falarei sobre a historicidade do nosso amado acordeom, sanfona, pé-de-bode, 8 baixos, gaita ponto, fole, cordeona... entre outros nomes que são atribuídos ao acordeom.

Antênógenes Honório da Silva

(Uberaba - MG, 30 de outubro de 1906 - São Paulo - SP, 9 de março de 2001)


Era filho de Olímpio Jacinto da Silva, serralheiro, ferrador de cavalos e acordeonista, e de Maria Brasilina de São José. Pelo lado materno, descendia do então empobrecido Barão de Ponte Alta[1]. Freqüentou a escola por apenas dois anos, começando a trabalhar muito cedo. Já nessa época, tocava acordeão e compunha.

Em 1927, trabalhando como servente de pedreiro, mudou-se para Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, e iniciou sua carreira artística. No ano seguinte, na capital paulista, começou a tocar na Rádio Educadora. Em 1929, gravou seus primeiros dois discos na Victor, interpretando o choro Gostei da Tua Caída, o maxixe Saudade de Uberaba, e as valsas Norma e Feliz de Quem Ama, todas de sua autoria. Gravou também na Orion e na Arte Fone. Em 1931, casou-se com Marcília Marinari, violinista e locutora com o nome artístico de Léa Silva, que, depois de atuar na Rádio Nacional, foi para os Estados Unidos trabalhar na CBS e na NBC.


Mudou-se para Rio de Janeiro em 1933, tornando-se desde então nacionalmente conhecido. Acompanhou grandes intérpretes nacionais e internacionais, entre eles, Lucienne Boyer e Marta Eggerth. Em 1934, fez uma turnê pela Argentina, e chegou a gravar com Carlos Gardel e Libertad Lamarque.

Foi o primeiro a tocar música lírica no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nunca deixou de se aperfeiçoar, tendo aprendido harmonia, solfejo e orquestração com Guerra Peixe. Foi também professor de Luiz Gonzaga, quando este ainda era não era famoso.

Em 1949, tendo concluído o curso primário em São Paulo, fez o ginásio em Niterói, formando-se depois em química industrial.

Antenógenes sempre manteve uma atividade paralela à vida artística, como comerciante de queijos. Depois de se formar, fundou o Laboratório Creme Marcília no Rio de Janeiro, do qual foi diretor-presidente.

Em 1957, ganhou o primeiro lugar no concurso patrocinado pela fábrica de gaitas Hohner, realizado em Trossingen, na Alemanha, tendo sido considerado um dos maiores acordeonistas do mundo. Nessa ocasião, recebeu convite para apresentações no Conservatório de Paris. Dois anos depois, fundou a Rádio Federal de Niterói, que ajudou, literalmente, a construir com as próprias mãos.

Conhecido como O Mago do Acordeom, tem uma extensa discografia. Durante muitos anos, manteve no Rio de Janeiro uma escola de acordeom, com cursos de teoria, solfejo e harmonia. Compôs valsas, tangos, xotes, mazurcas, sambas, rancheiras e outros ritmos. Gravou mais de 130 composições de sua autoria sozinho ou com diversos parceiros.

Alberto Calçada

(São Paulo - SP, 6 de agosto de 1929 - São Paulo - SP, 29 de julho de 1983)


Além de acordeonista , foi também compositor e produtor de discos, tendo sido também o fundador da Gravadora Chantecler.

Alberto começou a tocar acordeom com apenas 11 anos de idade. Em 1942, formou o conjunto Irmãos Calçada com as suas irmãs. O conjunto passou a se apresentar na Rádio Difusora nos programas "Clube Papai Noel" e "Festa na Roça". Na Rádio Record, os Irmãos Calçada se apresentaram no programa "Escola Risonha e Franca", na Rádio Record de São Paulo/SP. A família mudou-se para a cidade de Araguari, em Minas Gerais, em 1946.

Em 1947, formou um trio com os irmãos Sebastião Alves da Cunha e Elias Alves da Cunha. Atuaram na Rádio de Araguari até 1950. Ainda neste ano, o Trio apresentou-se no programa "Arraial da Curva Torta", apresentado pelo Capitão Furtado na Rádio Difusora. Com a dissolução do trio passou a se apresentar em circos em companhia de diversos artistas, como Tonico e Tinoco, Paraguaçu e outros, numa companhia de Celso Rodrigues, o Sertãozinho.

Em 1954, gravou com Palmeira e Biá fazendo acompanhamento no acordeom. Nessa época, Palmeira, Biá e Alberto Calçada foram contratados pela Rádio Piratininga, para um programa semanal que ia ao ar toda terça-feira às 21:00 Hs.

Em 1955, Alberto Calçada gravou na RCA-Víctor o seu primeiro disco 78 RPM com as músicas "Aí que Tá" e "Valsa do Pescador" interpretada por Palmeira e Biá.

No mesmo ano, gravou também na RCA-Víctor o seu segundo 78 RPM, com as músicas "Pica-Pau" e "Caldo Verde".

Em 1956, gravou seu terceiro Disco 78 RPM, também na RCA-Víctor, com "Sarapico" e "Baião Número Cinco".

Ainda em 1956, Alberto Calçada participou da gravação do primeiro bolero sertanejo, que foi "Boneca Cobiçada" interpretada por Palmeira e Biá.

Em 1958, gravou a valsa "Cascata de Lágrimas" e o tango "Paixão Gaúcha".

No mesmo ano, com Palmeira e Biá, passou a trabalhar num programa semanal na Rádio Record de São Paulo. E, na mesma emissora, participava de um programa que era dirigido pelo saudoso Vicente Leporace.


E foi nesse mesmo ano de 1958 que gravou seu primeiro LP intitulado "Cascata de Valsas", que foi também o primeiro LP lançado pela gravadora Chantecler, cujo nome também foi uma sugestão de Alberto Calçada.

Em 1959, "Alberto Calçada e Seu Conjunto" lançaram seu segundo LP pela Chantecler: "Cascata de Valsas – Vol. 02".

"Alberto Calçada e Seu Conjunto" lançaram ainda os LP Volumes 03, 04 e 05 de "Cascata de Valsas" entre 1960 e 1961.

Alberto trabalhou durante vários anos na gravadora Chantecler, tendo participado da maioria das gravações como técnico, onde também foi produtor de discos. Nessa época começou a deixar a vida artística.

Gravou um total de 21 discos 78 RPM, além de um compacto duplo e 20 LP. Dentre suas muitas composições destacaram-se, entre outras, "Condenado", com Palmeira, "O Céu Chorou Por Mim", feita com Haroldo José, "Água Benta", em parceria com Miltinho Rodrigues e "Regresso", composta com Dino Franco e gravada por Tibagi e Miltinho. Acompanhou entre outros, Tonico e Tinoco, Zé Carreiro e Carreirinho e Zé Fidélis. Entre suas produções está "Coração de Luto", o grande sucesso do cantor gaúcho Teixeirinha.

Mario Gennari Filho

(São Paulo - SP, 7 de julho de 1929 – São Paulo - SP, junho de 1989)


Apesar de cego, tocava muito bem, foi compositor do clássico Baião Caçula, depois gravado por outros grandes instrumentistas brasileiros, entre eles Dominguinhos, e, entre outras, gravou em ritmo de samba, Copacabana (João de Barro-Alberto Ribeiro) que depois veio a fazer grande sucesso com o cantor e pianista da bossa nova Dick Farney. Mario teve suas obras publicadas nos EUA e ganhou três vezes o prêmio de melhor instrumentista pela instituição Roquete Pinto (São Paulo).

Mário Mascarenhas

(Cataguases - MG, 21 de janeiro de 1929 - Rio de Janeiro - RJ, 1992)


Morou por três anos nos Estados Unidos, inclusive recebendo certificado pelo aprendizado do acordeom. Também morou por dois anos na Argentina, onde também estudou acordeom. Gravou 17 álbuns e foi um dos professores de acordeom mais famosos de todos os tempos. Escreveu vários métodos para vários instrumentos, foi um grande bussines man. Durante a década de 1950, no Brasil, o acordeom foi um instrumento muito popular, devido ao grande sucesso de Luiz Gonzaga; com isso, os métodos de Mário


Mascarenhas e suas aulas foram procurados com grande frequência,[1] fazendo com que ele reunisse professores e estudantes de suas academias de acordeom em um concerto de mil acordeões no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Alencar Terra

(Sacramento - MG, 1919 - Rio de Janeiro - RJ, 20 de Maio de 1963)


Outro importante educador brasileiro. Também foi um importante intérprete e compositor. Tinha sua própria academia de acordeom no Rio de Janeiro e mais tarde foi convidado a ser o supervisor da fábrica Scandalli, provavelmente em sua versão brasileira. Gravou seis álbuns 78 rpm, todos na gravadora COPACABANA.

Roberto Stanganelli

(Guaranésia - MG, 24 de fevereiro de 1931 - São Paulo - SP, 24 de setembro de 2010).


Estudou Acordeom no Conservatório Musical Brasileiro e começou também a despertar sua veia de compositor. E, no início da carreira, era conhecido carinhosamente como Rob Stan.


Dentre seus sucessos destacam-se "Sua Majestade, A Criança", "Festa de São João"(Com Sertãozinho). Roberto Stanganelli foi também produtor fonográfico. Foi produção de Roberto Stanganelli as duas primeiras gravações da jovem dupla formada pelos "Irmãos Lima" (filhos do paranaense Mário Antônio Lima que também já havia cantado em dupla com João Mineiro - "Joãozinho e Marinho" - o mesmo João Mineiro que formou depois a dupla com Marciano). "Chitãozinho e Xororo" (Serrinha e Athos Campos) e "Moreninha Linda" (Tonico, Priminho e Maninho) foram gravadas por José Lima Sobrinho e Durval de Lima.

João Donato

(Rio Branco - AC, 17 de agosto de 1934)


Tem vários sucessos gravados por grandes músicos do mundo todo, incluindo Chick Corea e Bob Mcferrin. João gravou acordeom com apenas 15 anos para o flautista Altamiro Carrilho (o flautista mais famoso do Brasil) e um pouco depois integrou o Trio Surdina como suplente de Chiquinho do Acordeom. João Donato ficou famoso como compositor e pianista. Famoso pelo seu suingue e melodias simples, aparentemente, como "A Rã", uma melodia de apenas quatro notas.

Dessa safra, o mais influente foi o acordeonista e maestro Orlando Silveira

Orlando Silveira de Oliveira Silva

(Rincão - SP, 27 de maio de 1925 — Rio de Janeiro - RJ, 22 de dezembro de 1993)


Com 12 anos, seu pai o ensinou a tocar acordeom. Aos 17, teve as primeiras noções de teoria musical. Logo mudou-se para São Paulo e, recomendado pelo acordeonista Arnaldo Meireles, assinou contrato com a Rádio Tupi, passando a integrar o regional de Antônio Rago. Lá conheceu o cavaquinista Esmeraldino Sales, com quem começou a compor.

Em 1951, foi levado por Luiz Gonzaga ao Rio de Janeiro, onde participou do Regional do Canhoto. Nesta época estudou com Koellreutter, Leo Peracchi e Henrique Morelembaum. Trabalhou de 1956 a 1976 na Gravadora Odeon, onde fez arranjos para artistas da gravadora, entre eles Elza Soares, Miltinho, Raul Seixas (No disco "Raulzito e os Panteras", de 1968), Marcos Valle, Clara Nunes e Elton Medeiros.



Artigo colaborativo do acordeonista, pianista, baixista, compositor e arranjador, Chico Chagas.


Chico Chagas é filho, neto e bisneto de acordeonistas, Chico segue levando a tradição na arte de tocar acordeon pelo mundo afora: uma combinação da autêntica música brasileira com uma releitura jazzística. Chico é um dos poucos acordeonistas brasileiros que tocam a música da Amazônia.

Acordeonista desde os 7 anos de idade, começou a tocar profissionalmente aos 8 anos em um trio de forro, o Trio Mirim.

No Rio de Janeiro estudou harmonia no CIGAM, improvisação com Dário Galante, piano popular com o Maestro Leandro Braga e, em Londres estudou acordeon clássico com o acordeonista inglês Romano Viazzani. É formado em Música pela Faculdade de Música do Espírito Santo – FAMES, Pós Graduado em Educação e Regência e Mestrando Profissional em Música na UNIRIO .

Pós graduado em educação e regência, Chico Chagas é mestrando profissional em música na UNIRIO e dedica parte do seu tempo ao ensino de música.

 
 
 

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